Esta semana, eu fui parte central do destino de duas moscas.
Isso me garante uma posição privilegiada para testemunhar a sorte que é reservada a esses pobres animais de menos de 30 dias de vida.
Vejam bem, então, como os meus atos futuros (passados, na realidade, mas, em termos de post, futuros) foram decisivos para acrescentar, pelo menos, uns 5% a mais de expectativa de vida para cada uma.
A primeira delas – chamemo-la Magnólia - passou por algo que todas as moscas, independentemente do que fizerem, irão um dia passar. Magnólia ficou presa no meu quarto, lutando desenfreadamente contra o vidro da janela, esse terrível ser inanimado, mas que a aprisionava em sua busca de liberdade, esperança e redenção.
Se continuasse do jeito que estava, não encontraria nada.
Por isso, o valor, o garbo, a magnitude e a eloquência existencial do meu simples gesto de abrir uma fresta daquela prisão sem grades, tomar Magnólia entre minhas mãos – vejam a beleza - e erguê-la, suave, delicada e heroicamente, levando-a, enfim, ao pequeno vão de uma abertura que seria para ela a abertura de uma imensidão sem fim.
E lá foi Magnólia, sem nem mesmo dar tchau, ou agradecer à altura. Talvez até tenha feito isso, mas eu não entendi.
Já Vitória, a segunda mosca, vivenciou momentos de angústia, aflição e opressão. Tudo começou com a minha ida ao supermercado. Havia uvas. Bonitas. Logo, havia moscas. Feias. Embalei-as (não em baleias, mas sim embalei-as) – as uvas – e comprei. Chegando em casa, depois de ter feito outras tantas coisas antes de ir fazer o que agora será logo descrito, fui desfazer as compras. Por último, coincidência ou não, lá estavam as uvas, esperando para serem despidas de seu envoltório plástico.
E eis, então, o momento derradeiro desta que vem a ser uma espécie de epopeia moscona, a saga vitoriana de Vitória: como em câmera lenta, vou desfazendo lentamente aquele nó que encerra naquele receptáculo as uvas e toda uma vida inteira que pode estar entre os minigalhos de um cacho, micróbios, bactérias, vírus, toda um ecossistema de vida da vide, e então, de dentro de toda essa vida ali em movimento, surge do meio das trevas daquele plástico ela, sim, Vitória, cruzando em velocidade supersônica o primeiro vão que se abriu entre o interior e o exterior, atravessando sem dó, sem olhar para trás, essa caverna sem pedras em busca de liberdade. [fim da câmera lenta]
Apesar da beleza do gesto hoje rememorado, meu primeiro pensamento, que também cruzou supersônico, foi algo como: “Putz, que nojo, essa mosca veio lá do supermercado”.
Depois disso, não soube mais nada de Vitória nem de Magnólia, mas elas se tornaram para mim, dentre os Grandes deste mundo, mais dois símbolos da luta contra a opressão, contra a supressão de direitos e a omissão da verdade (apenas para ficarmos nos substantivos terminados em “ssão” que me vieram à mente agora).
Magnólia e Vitória, eis a devida honra que mereceis.
Moisés Sbardelotto - 















