Toda a doutrina alcoolística do automobilismo já é de conhecimento de todos – ou da grande maioria: se dirigir, não beba; se beber, não dirija.
Mas e o que dizer da relação entre o álcool e as lufadas do amor? Pois bem, eu vivenciei dois episódios que são reveladores – e ambos no mesmo dia (hoje) em menos de 1 hora de diferença.
Situação 1: Trem, a partir da estação Aeroporto até meu destino
Estava eu distraidamente escorado na porta de um dos vagões, quando um sujeito para ao meu lado e fica lá esperando que eu o veja e reconheça a sua presença. Eu o olho e demoro para entender do que se trata. Caída a ficha, reconheço o pai de um amigo meu de infância – que não vejo há séculos e com quem não troco uma palavra há milênios.
Fato: Reconhecendo que o reconheci, o homem (de quase uns 60 anos), estilo puramente alemão do interior, apesar da baixa estatura, se inclina para mim, me abraça (um braço por cima do ombro, e outro pela cintura), encosta a cabeça no meu ombro (ele era mais baixo do que eu) e diz:
– Ô, amigão!
Reações: Primeiro, tive meu primeiro ímpeto (sistema nervoso parassimpático) de recuar e me preparar para algo pior. E pior veio quando a voz se dirigiu quase que diretamente às minhas narinas, e então pude perceber o nível alcoólico de cada fonema pronunciado pelo homem. Então entendi toda aquela disposição de ânimo.
Situação 2: Rua do bairro da minha família, caminhando em direção à casa paterna
Estava eu distraidamente caminhando pela rua, quando ouço gritos, risos e balbúrdia dominical de um bairro classe média. Da casa de origem de tudo isso, vejo uma figura loira, cabelos esvoaçantes, luminosos, descendo a escada da casa com grande presença. Reconheço o cabeleireiro, agora de ascendência italiana, mãos grossas e pele vermelha (mas com uma feminilidade superior à de sua mãe), a quem recorro nos momentos de pré-neandertalismo capilar, e vejo que o sujeito está excessivamente mais afeminado do que de costume – e de esmalte branco. Reconhecendo-me, joga-se na minha direção, braços abertos, me abraça, me oferece seu rosto e me dá um beijo estalado na bochecha e diz:
– Oi, meu amor!
Reações: Primeiro, tive meu primeiro ímpeto (sistema nervoso parassimpático) de recuar e me preparar para algo pior. E pior já tinha vindo poucos minutos antes, quando ao se dirigir a mim e me abraçar com tamanha intimidade e me tascar um beijo, percebo que metade do carinho presente naquele corpo estava repousando em álcool desde o meio dia. Então entendi toda aquela disposição de ânimo.
* * *
Pois bem, fica a lição. Pensem e reflitam. É muito interessante produzir campanhas e mais campanhas sobre a relação álcool e direção, mas e quando retornamos aos primórdios mais recônditos do ser humano, quando o mais sincero de cada ser se expõe, e qualquer brutamontes se transforma em puro coração e sentimento? Onde, as campanhas paliativas?
Óbvio que metade dessa reação alcoólica de pura paixão, lascívia e luxúria gratuita se deve à minha pessoa e ao encanto irresistível que causo (mentira).
Na primeira situação, aquele alemão-puro-chope me revelou a história da morte de sua mãe (!), aconselhando-me a valorizar até o cafezinho (!) que uma mãe prepara, porque depois fica uma sensação que não é saudade, não é tristeza, mas sim um vazio (!). Profundo.
Na segunda situação, aquele italiano-sangue-merlot me perguntou se nos veríamos até o Natal, mas não deu muita bola à resposta, porque estava mais interessado no caminhão de combustível (!) do dono da casa de onde provinham os ruídos ensandecidos, causados – aí entendi – justamente pelo retorno deste, são e salvo, à sua família.
Enfim, chegados até aqui, chegamos a uma simples conclusão de que o álcool pode também conter certa beleza e delicadeza – mas sempre em excesso. No mais, é preferível reconhecer as limitações etílicas dos seres humanos e ver que, num dia comum e corrente, as reações de ambos os sujeitos seriam, pelo menos, levemente inferiores em emoção e entrega de espírito.
Mas foi divertido e totalmente bizarro vivenciar essas duas situações, quase simultâneas, justamente em um dos únicos dias do ano em que, milagrosamente, EU ingeri bebida alcoólica. Espero que isso não tenha afetado os meus afetos. Sinceramente.