Ego, Metafísica, Vida lá foraNovember 19, 2009 3:36 pm

Esta semana, eu fui parte central do destino de duas moscas.

Isso me garante uma posição privilegiada para testemunhar a sorte que é reservada a esses pobres animais de menos de 30 dias de vida.

Vejam bem, então, como os meus atos futuros (passados, na realidade, mas, em termos de post, futuros) foram decisivos para acrescentar, pelo menos, uns 5% a mais de expectativa de vida para cada uma.

A primeira delas – chamemo-la Magnólia - passou por algo que todas as moscas, independentemente do que fizerem, irão um dia passar. Magnólia ficou presa no meu quarto, lutando desenfreadamente contra o vidro da janela, esse terrível ser inanimado, mas que a aprisionava em sua busca de liberdade, esperança e redenção.

Se continuasse do jeito que estava, não encontraria nada.

Por isso, o valor, o garbo, a magnitude e a eloquência existencial do meu simples gesto de abrir uma fresta daquela prisão sem grades, tomar Magnólia entre minhas mãos – vejam a beleza - e erguê-la, suave, delicada e heroicamente, levando-a, enfim, ao pequeno vão de uma abertura que seria para ela a abertura de uma imensidão sem fim.

E lá foi Magnólia, sem nem mesmo dar tchau, ou agradecer à altura. Talvez até tenha feito isso, mas eu não entendi.

Vitória, a segunda mosca, vivenciou momentos de angústia, aflição e opressão. Tudo começou com a minha ida ao supermercado. Havia uvas. Bonitas. Logo, havia moscas. Feias. Embalei-as (não em baleias, mas sim embalei-as) – as uvas – e comprei. Chegando em casa, depois de ter feito outras tantas coisas antes de ir fazer o que agora será logo descrito, fui desfazer as compras. Por último, coincidência ou não, lá estavam as uvas, esperando para serem despidas de seu envoltório plástico.

E eis, então, o momento derradeiro desta que vem a ser uma espécie de epopeia moscona, a saga vitoriana de Vitória: como em câmera lenta, vou desfazendo lentamente aquele nó que encerra naquele receptáculo as uvas e toda uma vida inteira que pode estar entre os minigalhos de um cacho, micróbios, bactérias, vírus, toda um ecossistema de vida da vide, e então, de dentro de toda essa vida ali em movimento, surge do meio das trevas daquele plástico ela, sim, Vitória, cruzando em velocidade supersônica o primeiro vão que se abriu entre o interior e o exterior, atravessando sem dó, sem olhar para trás, essa caverna sem pedras em busca de liberdade. [fim da câmera lenta]

Apesar da beleza do gesto hoje rememorado, meu primeiro pensamento, que também cruzou supersônico, foi algo como: “Putz, que nojo, essa mosca veio lá do supermercado”.

Depois disso, não soube mais nada de Vitória nem de Magnólia, mas elas se tornaram para mim, dentre os Grandes deste mundo, mais dois símbolos da luta contra a opressão, contra a supressão de direitos e a omissão da verdade (apenas para ficarmos nos substantivos terminados em “ssão” que me vieram à mente agora).

Magnólia e Vitória, eis a devida honra que mereceis.

EgoNovember 9, 2009 7:01 pm

Preciso assumir que, definitivamente, não sou um bom cumpridor de promessas. Nem quero retomar o que havia prometido no último post, porque chega a ser ridículo ver que depois de séculos (quantos mesmo?) eu resolvo voltar por aqui para comentar alguma bobagem qualquer.

Mas hoje não.

Hoje falaremos da vida, da minha, da nossa. E tudo por causa de uma placa de uma van provinda de Brochier.

Mas, antes, vamos aos fatos. Na realidade, me dei conta de que a falta de atualizações no blog se deve a algo simples: falta de inspiração. Comecemos pelo óbvio: minha musa inspiradora se encontra a miles aways e assim continuará estando a partir de alguns dias. Graças ao bom Deus (ou boa?) (soa um pouco indecente ter uma Deusa boa. Seria quase como ter uma Deusa gostosa, se é que me entendem. Feminismo tem seus limites) (Enfim), nesse ínterim, ela por aqui estará, inspirando-me contêineres de boas vibes (cf. Martins Moraes, 2009).

Por outro lado, é triste assumir, estou em pleno interior. Minha cidade atual, apesar de estar a poucos quilômetros da capital, é muito interiorana. E o meu trabalho atual o é ainda mais. Nem uma cobertura ampla de wi-fi existe por lá. E nem um McDonald’s por perto, o que é um magnânimo indicador de desenvolvimento (e não sejam esquerdistinhas bobos para dizer que não).

Então, me encontro sem inspiração interior (= Anne), nem inspiração exterior (= vida em movimento). Moro num bairro tranquilo e da minha janela vejo apenas casas residenciais (bonitas, sim) e um Cristo de braços abertos lá longe. E bastante vegetação, natureza, morros, o que é legal. Mas nada que gere posts, a não ser que eu fique voyeurizando a full os meus vizinhos. O que pode render problemas.

Ou a fama (vide Pedro e o chip).

Outro fato que explica a falta de posts (e de risco psicológico) é a falta de conviventes. Trabalho numa sala sozinho, moro sozinho. E o fator “ser humano”, em geral, gera posts.

Mas voltemos a Brochier, mesmo sem ter ido. Fato é que caminhava eu pela avenida em frente ao meu trabalho, quando vejo pessoas descendo de uma van para ir à aula. E a van era de Brochier. Foi aí então que, de tudo o que disse acima, acentuou-se sobremaneira a sensação de “definitivamente, estou no interior”. Não que isso também não possa significar que estou, pelo menos, no primeiro centro mais próximo do interior, o que já é um avanço, visto que essas pessoas tiveram que se deslocar até aqui. Mas é um centro passageiro e vago, aonde as pessoas vão para depois só voltar. O tempo que permanecem por aqui é só uma exigência acadêmica de cumprir 75% de presença em sala de aula, e isso não gera vida em movimento. Gera só movimento.

Definir vida em movimento é difícil, já que é algo pessoal, mas me refiro a poder abrir a porta da casa e ter ao menos duas opções de lazer, visto que trabalho é vida só no dia em que se recebe o salário – dia em que, aí sim, começa-se a pensar no que fazer com aquela quantia para realmente viver. Então, falava de lazer. E por aqui o único lazer são duas pizzarias e um boliche. E um quartel, se eu fosse uma depravada carente com leves tendências masoquistas. Em não sendo, me resta ou passar pela insensata opção de ir a uma pizzaria sozinho e pedir uma “mesa para um”, ou então ir a um boliche, repleto de manos e minas e suas galeras, e pedir uma pista para ter todas as bolas para mim (o que remete à opção de depravação sexual, agora desvirtuada).

Enfim, tentarei gerar vida em movimento, já que o mundo (= sempre eles, os outros) não estão muito aí para mim. Tenho muita vida, sim, mas aos finais de semana. E quando chega segunda parece que não vale mais a pena compartilhar alguma coisa do que se passou. Neste último, por exemplo, passei grande parte do tempo com as minhas sobrinhas, o que rende monografias (cf. Pedroso, 2009) aos montes. Mas não vou ficar expondo minhas sobrinhas sem o consentimento delas, mesmo já tendo feito isso antes – até porque agora elas já são o suficientemente grandes até para acessar o meu blog e descobrir o que eu ando escrevendo sobre elas.

Então, chegando ao final deste post, me dou conta que não escrevi nada que sirva para alguma coisa, mas tentei explicar minha situação atual para que não pareça desleixo para aqueles que aqui passam (especialmente aos meus fiéis leitores que passam por aqui procurando por coisas que eu também ainda não achei).

EgoAugust 18, 2009 11:40 pm

Novos tempos e novas realidades exigem novas posturas, novas ações e novos blogs.

Mosaico retornará, em breve, aos seus tempos de extrema glória, fama e sucesso que nunca existiram. Futilidades, nonsense, bobagens e a mais alta filosofia pós-ontológica, metacientífica, ultramoderna e trimassa, tudo em um único lugar.

Aguardem.

Ego, Internet, CientificismosApril 20, 2009 12:22 pm

Como eu quero “espetacularizar” a minha personalidade e fazer do meu próprio “eu” um show, acabo de abrir uma conta no Twitter.

E como tempo é uma coisa que está me sobrando colossalmente – como as atualizações deste blog confirmam -, espero aguentar (ai, o trema…) um pouco mais de uma semana até encher o saco e mandar tudo às favas, como o Orkut, o Facebook e demais redes sociais realmente inúteis e inutilizadas para mim.

Mas espero que continuem me considerando um ser vivo, com tudo o que isso significa.

Ego, Metafísica, Arte, Linguagem, CientificismosMarch 11, 2009 11:33 am

Crise de identidade? Nada disso. Superávit de identidade, nesse caso.

Graças a Deus, ou ao meu xará, como queiram.

Lendo um artigo de uma revista de judaísmo reformado (sim, eles também), descobri esta pérola que, aos meus 25 quase 26 anos, fará toda a diferença para os anos vindouros. Leiam, como ele pede, “como um místico o leria, prestando uma atenção extremamente grande e assumindo que o texto bíblico mais esconde do que revela”:

O nome do nosso patriarca Jacó é duas vezes modificado para Israel. Faraó não é um nome. E Moisés não é um nome. Moisés, em egípcio, significa “nascido de” – assim como no nome Tutmosis (nascido de Tut).

Consideremos: se o nome do nosso grande líder Moisés não é realmente um nome, ele significa alguma outra coisa? De um modo interessante, se soletrarmos o nome Moisés em hebraico de trás para frente, Moshe se torna HaShem, que literalmente significa “O Nome”, uma das formas dos judeus se referirem a Deus.

Desculpem-me os fracos: mas está escrito em tábuas de pedra pelo dedo de Deus. Ou melhor, o meu faixa, o meu xará, o meu parceiro, meu amigão, gente finíssima.

Ego, Linguagem, Baixaria, CientificismosFebruary 19, 2009 10:45 am

É nessas horas que eu me questiono por que não investir em um Mac com Linux.

Televisão, Propaganda, BaixariaFebruary 16, 2009 9:32 pm

Acabo de ver a propaganda de um supermercado em que diversas pessoas economizam.

Porém, uma delas, ipsi literis, “economiza na banana”.

É impossível, tendo em vista a naturalidade duplo-sensitiva da palavra e da coisa-em-si banana, não pensar em bobagem.

Então, fica a pergunta: você também economiza na banana?

Ego, Metafísica, InternetFebruary 8, 2009 9:05 pm

Eu juro que não tenho nada a ver com isto.

Ego, Metafísica, LivrosFebruary 7, 2009 9:28 am

De ateu e devasso (mas nem tanto), a monge trapista. Tudo – ou quase tudo – o que se passa naquela vírgula da vida de Thomas Merton estão no livro “A montanha dos sete patamares”.

Na realidade, por causa do trabalho, acabei esbarrando na vida de Merton, especialmente quando li um artigo que o definia como o “santo dos paradoxos” (mesmo sem ser oficialmente santo). E aí já comecei a me interessar pela vida dele. Depois, lendo mais um pouco aqui e ali, finalmente decidi encarar as quase 500 páginas de uma espécie de diário que ele escreveu já quando vivia no Mosteiro de Gethsemani, no Kentucky.

Nascido na França em 1915, tendo depois vivido na Inglaterra e finalmente nos EUA, só se converteu e se batizou católico aos 23 anos, depois de muitas andanças e buscas por aí. E esse período toma quase 2/3 do livro. E chama a atenção: como assim, um livro que trata da vida de um monge, escrito por ele mesmo, e mais da metade dele fala da sua vida “não-convertida” e atéia? Bom, talvez justamente aí resida a qualidade da obra – e da “conversão” de Merton.

(more…)

Estou com sorteFebruary 5, 2009 9:00 am

O amor é como luz: expande-se. O amor é como a água: derrama-se. O amor é como menininha quando nasce: esparrama-se. Não apenas pelo chão, mas também pelo quarto inteiro, pela casa inteira, sobre o sofá, sobre a mesa, sobre a cama. E também sob a cama, sob a mesa, e talvez, até sob o sofá.

O amor é como a porta de uma geladeira: quando aberto, revela a abundância do seu conteúdo. Quando fechado, conserva a existência daquilo que contém.

Seu ambiente natural é o Cosmos Universal, onde toda a explosão expansiva de sua presença não conhece limites.

Como diria o grande poeta, “faça o amor, seja onde for”.

A categoria Estou com sorte aborda buscas feitas por usuários do Google, que remetem a este blog. Dessa forma, este humilde autor pretende dar respostas coerentes ou simplesmente literário-filosóficas às mais urgentes buscas da humanidade.

Jornalismo, Gentalha, BaixariaFebruary 2, 2009 3:17 pm

Prestem muita atenção ao 17º segundo deste vídeo. O sujeito indicado está sendo procurado nos EUA. Qualquer informação, entrem em contato urgente com o FBI.


Ego, Metafísica, Vida lá fora, Gentalha, Baixaria, CientificismosJanuary 30, 2009 9:53 am

Tenho me consultado com uma homeopata.

Não que eu seja especificamente uma pessoa crente nas coisas às quais não temos acesso (especialmente no que se refere à saúde), mas, convenhamos, a homeopatia tem muito de mistério.

E tenho que confessar que gostei. Já tinha ido em outro homeopata, por indicação da minha irmã, mas desisti, por diversas razões, especialmente quando ele quis dar uma de psiquiatra (que, na verdade, ele era), encontrando a causa de todos os meus problemas na minha incapacidade de lidar com o tempo: ou seja, cheguei atrasado na consulta, e isso, pelo que ele deu a entender, nem a homeopatia cura. Mas, no caso, o que ele não conseguiu captar é que o que eu buscava não era a cura dos meus atrasos, mas sim de outras coisas.

Enfim, divago.

Quero chegar ao ponto dessa nova doutora – sem baixarias, por favor. Quando se pensa em homeopatia, se pensa em coisas além da pura e simples medicina. Pensa-se em mistério, em uma quase-alquimia nebulosa que, de gota em gota, cura até mesmo a morte.

Pois bem, desta vez foi uma reconsulta. Vendo que, deveras, algumas coisas haviam dado o seu esperado efeito e outras não, a doutora-maga retirou de baixo da sua mesa um imenso livro – sim, imenso, como essas grandes Bíblias da vovó ou esses dicionários de 1940 – e começou a folheá-lo para encontrar, por fim, o nome do elixir da minha salvação.

Obviamente que, viajando na minha imaginação, vi a bruxa médica recitando versos e mantras sagrados enquanto virava cada página, soltando uma espécie de pó mágico brilhante que resplandecia contra a luz do sol.

Acordado do breve sonho, me despertei novamente em frente à doutora, que finalmente escrevia na receita o nome sagrado do líquido divino que me concederá a força necessária para alcançar o Paraíso: Silicea.

E, então, vi a Luz.

Ego, Vida lá fora, Gentalha, Linguagem, BaixariaJanuary 22, 2009 9:55 am

Como 99,9% da população brasileira utilizadora de linhas telefônicas, tive que entrar em contato com a Brasil Telecom e seus fantásticos e sempre mais surpreendentes atendentes de telemarketing.

Aqui, independe a reclamação. O fato é a intimidade da atendente (sim, mulher).

Lá pelas tantas, feito o pedido, anotado o protocolo, suspirado o estresse, faltava apenas anotar os dados do solicitante, i.e., djô myself. Digo a ela, então, que eu sou quem eu sou, com o nome com o qual me chamam. E então, eis que ocorre o nirvana da genealogia mundial:

- Bonito esse teu sobrenome… Diferente…

Pausa para digestão filosófica.

Não sei o que sobrenome significa lá pelas bandas onde essa moça vive, mas, se ela acha bonito, imagina então se visse o resto.

Arte, Vida lá fora, Gentalha, LinguagemJanuary 19, 2009 1:48 pm

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Detalhe para o preço da camiseta, que confirma tudo.

Vida lá fora, Baixaria, PoliticagemJanuary 16, 2009 10:54 am

Um dos pontos em comum entre Israel e Hamas é que, independentemente das posições pró ou anti qualquer um deles, a partir de agora, para separá-los, sempre será necessário não o emprego da força, mas sim de um hífen.

Ego, Metafísica, Vida lá fora, GentalhaJanuary 14, 2009 9:13 pm

Reconheci hoje que minha gata possui um pouco de sangue nobre, polido e levemente compassivo.

Como vocês devem saber, gatos caçam, especialmente passarinhos e ratos. Aqui em casa, os momentos mais baixos da nobreza, da polidez e da compaixão da Miminha já ocasionaram a morte de uma dezena de aves, entre pombinhas e sabiás.

Mas hoje ela revelou o seu lado mais elevado.

Um ratinho apareceu no pátio da frente de casa, onde a Miminha não tem muito acesso, por causa da rua. Às vezes ela se aventura por ali, mas com medo.

Então, como um arauto, fui tentar resolver a pendenga judicial territorial animal pessoalmente. E nem foi intencional: estava saindo de casa quando vejo que há aquele camundongozinho caminhando por ali. Quando me vê, dá um saltinho no ar, grita e sai correndo. E se esconde num cantinho do pátio, como que amedrontado.

Pensei, por isso, que a solução estaria na diplomacia. E trouxe a Miminha para tratar a questão com o invasor, e que encontrassem uma solução – pacífica ou não.

E qual não foi a minha surpresa ao descobrir que o sangue mais nobre da velha Inglaterra corria livre e cheio de vida pelas veias da minha felina. No primeiro contato (e o ratinho permanecia de cara para o canto do muro, parecendo castigar-se por uma atitude tão impolida como invadir o território alheio), o invasor, ao perceber a presença da Miminha, só conseguiu dizer: “Iiiiic!”, e saiu correndo novamente para o outro canto do muro. A gata, sem muitas preocupações, foi atrás do ratinho, totalmente indefeso e diminuído, que não sabia muito bem por onde ir. Ele, prevendo os mais tenebrosos e sangrentos desfechos para a situação, resolveu dirigir-se ao desconhecido, parando perto do portão, sem saber para onde ir, cheio de dúvidas e incertezas.

A Miminha, totalmente graciosa e com elevado garbo, saiu atrás do ratinho, saltitante e de orelhas em pé (se quiserem mais plasticidade à cena, sugiro rever algumas imagens dos desenhos do Tigrão, amigo do ursinho Puff – na minha época era Puff -, quando o grande felino laranja conseguia saltitar com as quatro patas ao mesmo tempo. A Miminha se aproxima muito disso).

E foi assim que a nobre gata conduziu o pequeno ratinho, diplomaticamente, até o portão, onde então o esperançoso roedor conseguiu vislumbrar o horizonte oferecido pela rua, tomou rumo e desapareceu.

Então, vejam só como a natureza nos ensina. Minha gata, que tem lá seus antepassados pelo Maine, deveria, conforme a Wikipedia, honrar suas tradições de caça aos ratos. Mas ela preferiu, sabiamente, a outra parte da sua herança genética, muito mais importante nos dias que correm: a grandeza gentil.

Ou seja, com um currículo de caçadas e mortes de passarinhos aqui em casa, ela, com uma simples patadinha, poderia mandar o ratinho goela abaixo em poucos segundos.

Mas sabe-se lá o que aquele singelo “Iiiiic!” despertou no seu nobre, elevado, polido, compassivo e extremamente grande e gentil coração de felina. Só sei que, desta vez, ela preferiu a paz.

Ego, Vida lá fora, LinguagemJanuary 8, 2009 8:37 am

Minha sobrinha Cecília, lá nos States, está na final da versão do “Soletrando” da escola dela.

E foi só ela dizer que estava nervosa, que eu aqui já estou pior que ela.

Afinal, não basta ser tio. Tem que se angustiar junto.

Mas o melhor de tudo é saber que, independentemente do resultado, uma vitória a mais ou uma a menos, para quem já ganhou tantas coisas nesses últimos dez anos de vida (ou seja, toda a vida), só o fato de ter chegado à final de um concurso contra tantos falantes nativos é apenas mais uma demonstração da capacidade dessa pintassilga.

Ego, Metafísica, Vida lá fora, CientificismosJanuary 6, 2009 9:36 pm

Para começar 2009 satisfatoriamente, decidi tomar uma medida drástica: levar uma vida semimonacal (sem hífen, como manda a lei).

Lendo um livro que fala basicamente de como um “completo devasso” (mas nem tanto) chega às portas (e aos adentros) de um mosteiro trapista e lá passa a viver por uns bons anos (Thomas Merton é o nome do indivíduo), decidi que certas mongitudes têm seu valor.

Não passarei a dormir às 19h para acordar às 4h e rezar Laudes antes do nascer do sol. Não é nesse sentido. Mas pretendo manter um certo ritmo de vida que corresponda à minha natureza – seja ela lá qual for. Talvez assim, em ritmo comigo mesmo, passe a descobrir de que natureza sou feito.

Também não é nada muito zen, nem muito new-age. É simplesmente manter o ritmo. Tentar acordar no mesmo horário, ir dormir na mesma hora, manter uma alimentação que se mantenha dentro de um gradiente aceitável, ter certas rotinas e horários para certas coisas que aceitem rotinas e horários. E, assim, buscar um pouco mais de harmonia vital.

Pode parecer frescura, viadagem ou charme. E pode ser mesmo. Não sei especificamente aonde quero chegar com isso, mas sei que é um bom caminho. Mas nunca é demais ter um pouco de equilíbrio.

EgoJanuary 1, 2009 2:46 pm

E eis que um novo ano surge, com possibilidades promissoras.

Porém, preciso fazer um breve mea culpa por tê-los deixados, caríssimos/as leitores/as, extremamente solitários/as nas últimas semanas (e meses). Tentei inventar algumas coisinhas para me obrigar a postar mais seguidamente, mas não é que tenha dado muito certo.

Digamos que, de um certo ponto, a experiência blogueira na minha vida foi perdendo um pouco do vigor, talvez pelas novidades de 2008 e pelas coisas que aconteceram do lado de cá da tela. Mas nem que seja por um mero exercício de escrita, pretendo não me desfazer dos blogs neste 2009. Eis a minha promessa de ano novo.

Pelo menos, um aspecto positivo é que eu consegui cumprir todas as minhas resoluções de ano novo para o velho 2008. E isso dá esperanças para 2009.

Então, nada melhor que iniciar um ano novo rememorando os bons momentos do ano velho. Eis a concretização disso a seguir, nos melhores momentos deste Mosaico em 2008, de acordo comigo mesmo, sim, sinhô.

Janeiro:

Brasilidades espanholas
Estatísticas paradisíacas
[ o que é piolho metafísica ]
[ caspa metafisica ]

Fevereiro:

Animal House
[ mulheres de todo mundo videos e fotos prazer e sexo e safadesa ]
Portão dos infernos
[ se a uma distância de 50 metros dá para se ter certeza de um crime ]
Can I play with Mathness

Março:

Dos líquidos humanos e de sua força de sugestão
“Fucking rock and roll”
Atenção, caminhoneiro leitor deste blog em busca de um grande amor
Flatulência humana – decorrências e usos

Abril:

Schmap, ou o dia em que o Moisés caiu numa suposta farsa
Sempre pode ser pior
Futgay

Maio:

Desprogramação mental
O que você faria se uma Bakkushan lhe Menggerumut?
[ COMO OS VETERINÁRIOS CUIDAM DOS ANIMAIS ]
Schmap! Fui escolhido
O processo evolutivo da comunicação em gatos

Junho:

O dia em que o Google me abduziu pelo Rovani
Sobrinhices

Julho:

“Ah, eu tô pegando!”
Lirismo literal

Agosto:

Fazedor de xixi
25 primaveras, verões, outonos e invernos
Da verdade, quando bate à porta, com um leve atraso

Setembro:

Mudanças em silêncio
Let your boobs talk
Sobre ternos e fotografias

Outubro:

[ a vida nao é so um amontoado de conhecidencias ]
1 ano de Mosaico
Da agroecologia humana
Globalize já

Novembro:

Arriba, @!
Da irracionalidade orgânica do ser humano

Dezmbro:

Quádruplos sentidos
O fim do fim
Preocupado com os problemas sociais brasileiros? Vai escutar MPB, rapaz

E que 2009 seja pura perfeição. A todos nós, especialmente aos meus fidelíssimos leitores e leitoras.

Ego, Metafísica, Jornalismo, Baixaria, Cientificismos, PoliticagemDecember 15, 2008 7:50 pm

Imaginemos um jornalista brasileiro. Imaginemos um sociólogo norte-americano. Imaginemos a temática “sociedades não-religiosas são geralmente mais satisfeitas/contentes, como a Dinamarca e a Suécia demonstram empiricamente”.

Imaginemos agora uma entrevista daquele com este, tendo como pano de fundo o lançamento de um livro desse sociólogo sobre a temática.

E imaginemos a seguinte pergunta com a seguinte resposta:

Na sua opinião, qual a explicação para a grande maioria da população que se considera religiosa em países como o Brasil? Seríamos menos “satisfeitos”?

Eu não sei se as pessoas são menos satisfeitas no Brasil por si sós (todo brasileiro que eu já conheci era muito feliz e satisfeito!), mas isto eu sei: no Brasil, vocês têm taxas mais altas de pobreza, vocês têm taxas mais altas de criminalidade, níveis muito altos de desigualdade, de corrupção política, um sistema de saúde mais pobre, uma igualdade de gênero mais fraca etc. Vocês têm centenas de milhares de sem-tetos e desabrigados vivendo nas ruas, dezenas de milhares de crianças pedindo comida etc. Claro, vocês também têm Milton Nascimento e Os Mutantes. Então, quem pode reclamar?

O grifo é meu. E o pasmo também.

Obrigado, academia, pelos teus frutos de “sabedoria” que adoçam o meu dia-a-dia.

Ego, Metafísica, Vida lá fora, LinguagemDecember 13, 2008 10:17 am

Minha sobrinha Luisa veio aqui no meu quarto, correndo por um pouco de colo e carinho após um leve acidente infantil entre uma cabeça e o piso da casa (acontece…).

Lá pelas tantas, e as crianças gostam de demonstrar que não precisam de consolo e que tudo já passou e que apenas vieram ao nosso encontro porque sabem se aproveitar das oportunidades, ela começou outros assuntos diversos – ela tem 3 aninhos, então seu vocabulário ainda é pequeno, mas se vira na falação – e como fala!

Então, viu minha foto na parede, trajado de “formando”, com aquelas plumas e babados ridículos. E me perguntou o que era aquilo. Eu tentei explicar. Ela não aceitou. E me perguntou “o que era aquilo”, por várias vezes. E eu respondi outras tantas. Tentativas todas sem resultado. E me perguntou novamente “o que era aquilo”, apontando para aquelas coisas brancas despontando na toga preta. E eu perguntei “e o que é, então?”. E ela resumiu nestas palavras, fazendo uma desconstrução paradigmática da cultura contemporânea e do ensino superior brasileiro:

- É uma coisa de Papai Noel.

Propaganda, Jornalismo, Vida lá fora, Baixaria, PoliticagemDecember 11, 2008 8:41 am

Uma demonstração clássica do cosmopolitanismo (bairrista) de Porto Alegre está na página de entrada (leiam bem: na página de entrada) do site do principal jornal da capital do Estado.

“Orgulho de ser gaúcho” dá nisso. E isso que a guria nem passou na Ufrgs, senão a dose seria – penso – bem pior.

Galeria mosaica, 100 palavrasDecember 10, 2008 10:01 pm

- Por favor, deixe-me terminar.

Mas ela não deu nada de atenção. Virou-se para a janela, abriu bem a vidraça e debruçou-se olhando a chuva. Atrás, o outro morria aos poucos, perdendo o que lhe restava de vida a cada sofrida inspiração.

– Por favor, eu lhe peço, por favor – e escandiu bem cada sílaba -, deixe-me terminar.

“Você já teve vários anos para ‘terminar’”, pensou amargamente a mulher. “E não os aproveitou”, concluiu o raciocínio. Fechou a janela, deu meia volta e saiu, deixando a porta aberta.

– Por favor… eu só queria lhe dizer que…

E desfaleceu.

A categoria 100 palavras é composta por pequenos contos, todos com apenas 100 palavras, nada mais, nada menos.

Ego, Metafísica, Vida lá fora, Linguagem, Baixaria, CientificismosDecember 6, 2008 10:21 am

Participando de um excelente debate acadêmico ontem (itálico = irônico), confirmei ainda mais minha tese de que é dificílimo encontrar uma verdadeira “ciência da comunicação”. O que se vê é apenas a inextinguível “comunicação da ciência”, ou seja, tomar um fato comunicacional qualquer e travesti-lo, como uma verdadeira drag queen, com acessórios e mais acessórios de outras ciências. Aquilo que fazíamos desde o segundo grau, mas chamávamos de “resumo” e assumíamos que era muito mal feito e não colaborava em nada com o mundo ao redor. Porém, na academia, com a presunção elevada a graus inimagináveis, assistir uma semana de novela e descobrir que os produtos comunicacionais possuem um “padrão técnico-estético ideológico” é considerado uma grande pesquisa. Mas, para mim – desculpem-me, pesquisadores das mídias eletrônicas – só me parece um jogo de palavras mais elaborado para dizer aquilo que eu ouço nas conversas de bar, talvez com palavras bem mais simples e acessíveis à reles pública – porém a coisa é a mesma. Seria então necessário o investimento maciço de fundações do exterior para descobrir o que é fato visível a todos? Ou o dinheiro vem para que o óbvio seja travestido, como Priscila, a Rainha do Deserto, com um pouco de plumas rosas e pareça uma grande novidade?

Mas não é este o meu tema.

A questão é que, durante as exposições, um moçambicano assumiu o púlpito. E abordou o projeto Chonga Maputo. No momento em que ele disse isso, o mundo parou, uma janela de imensidão se abriu diante de meus olhos e eu vi… enfim… algo grande, comprido e grosso. E de genes africanos.

Olhei para o lado para ver se a visão havia afetado apenas a mim, e pareceu que não. E então, rapidamente, para se desfazer do labirinto idiomático-sexual em que se havia metido (ops…), ele explicou: chonga, numa das línguas moçambicanas, é o adjetivo “belo”. E Maputo, como vocês deveriam saber, é a capital de Moçambique. Ou seja, Bela Maputo.

Vejam o que as diferenças lingüísticas e culturais podem fazer na vida de uma pessoa. Mesmo que falem português lá também, chonga é belo, e não cutuca nem um pouco a interpretação dos fatos. Para nós (não no meu caso, para que fique claro), uma chonga pode ser bela, assim como nossas cidades também podem ser uma chonga. Tudo depende da interpretação e do ir-além.

E o rapaz continuou explicando: o projeto era uma parceria do canal STV moçambicano (parceiro da Rede Globo) para a pintura dos prédios da cidade com a mobilização de parceiros diversos. Ou seja, eles pegariam brochas e dariam uma pintada nos edifícios. E aí poderíamos chegar ao absurdo:

Moçambique fica bem mais chonga quando se pega na brocha e se lhe dá uma pintada com a mobilização de todos os seus parceiros.

Ou melhor:

Com as brochas de todos os parceiros, a pintada que se deu em Moçambique foi chonga!

E as variações podem ser múltiplas. Hm… cada vez pior. Melhor parar por aqui, antes que eu decida começar uma pesquisa a respeito disso.

Ego, Literatura, Propaganda, Linguagem, 100 palavrasDecember 4, 2008 9:28 pm

Para evitar a falta de criatividade, temos que ser criativos. Ou copiar idéias criativas, o que dá quase no mesmo.

Assim, acabo de criar uma nova categoria para esta bagaça de blog de extrema qualidade, chamada 100 palavras. Cos’è? Apenas pequenos contos, para alegrar a vida de vocês e ampliar o espectro da literatura mundial online. Mas todos com 100 palavras, nada mais, nada menos. Exatamente 100 palavras. Podem usar o Abulafia (cf. Eco) para confirmar a exatidão do coiso.

Mas como toda criatividade tem limites, a minha já acabou por hoje. Então, aguardem, ansiosos/as, pelo inaugural conto 100 palavras.

Ego, Vida lá fora, CientificismosNovember 28, 2008 2:14 pm

Tenho me mantido afastado do blog nestes últimos dias. E tudo se explica com isto: drogas.

As drogas têm se tornado cada vez mais freqüentes na minha vida, diria até mais do que diariamente. E tudo licitamente. Mas são drogas – desde as homeopáticas até as tradicionais.

São 12 gotas homeopáticas mais um suplemento alimentar (derivado da cerveja) diários e 3 doses semanais de um remédio que, de tão forte, é abortivo (para as mulheres, obviamente).

Então, calculate frate. E o pior: não tenho uma doença , propriamente dita. São todas medicações… hm… estéticas? de prevenção? de bichice aguda? de frescura?

Enfim, essa é a minha realidade atual. E espero que compreendam essa minha ausência bloguística que em muito afeta a vida de vocês, como eu posso perceber.

Ego, Metafísica, Vida lá fora, GentalhaNovember 9, 2008 4:44 pm

Se eu me considerasse totalmente racional, diria aos meus folículos pilosos da região da face que deixassem de gastar energia – deles e minha – produzindo a desnecessária barba de cada dia e investissem ou reanimassem a comunidade de seus co-irmãos que povoam (com um altíssimo índice de mortandade e emigração) o meu couro cabeludo (que, desde os últimos meses, mereceria um novo adjetivo).

E eles obedeceriam.

Mas não é assim, infelizmente. E isso eu já estou careca de saber.

Ego, Música, ArteNovember 7, 2008 8:52 am

Se algum dia eu gostei de Dropkick Murphys, esse gosto apenas se aprimorou no ano passado, quando conheci a Flogging Molly, valendo todos os elogios de uma à outra (é só ler no link).

Como esse gosto teve um excesso de sabor nesta semana, sugiro aqui que vocês peguem a primeira caneca (de metal, de preferência) que tenham por perto e encham-na com cerveja preta (para manter o clima). Se não tiverem, ok (eu também não tenho e nem bebo). Mas pelo menos vivenciem, internamente, toda a situação, experienciem a sensação, aumentem o som e cantem, como se estivessem numa roda de amigos, todos bêbados, abraçados em alguma taverna, cantando aos berros esta linda canção:


Agora revejam a canção, prestando especial atenção na mudança sonora da música aos 1’30 e depois na virada simples, mas excepcional, da bateria e na sua paradinha ali pelos 1’45, com a guitarra distorcendo bonito um banjo de fundo. De chorar no cantinho.

E se gostarem, sugiro ainda Man With No Country, Float e Requiem For a Dying Song. E vejam, por favor, esta versão ao vivo de Seven Deadly Sins. Nonsense é pouco. Fenomenal.

Eis porque a Irlanda hospeda o meu blog.

Ego, Metafísica, Vida lá fora, Linguagem, PoliticagemNovember 5, 2008 9:25 pm

Não sou negro e não sou norte-americano. Mas além de toda a cobertura midiática em cima da eleição do Barack Hussein Obama, não tenho dúvidas de que foi um momento histórico (o que não é histórico, não é verdade?).

Pois bem, mas gostaria de destacar um pouco das belas noções arianas da nossa stupidizia porto-alegrense, que se reúne em cafés num programa semanal para debater amenidades com sabor de alta cultura. No último programa, o profícuo debate foi sobre a falta de projetos dos candidatos, especialmente de Obama, que teria apoiado sua candidatura, segundo os sábios televisivos, na cor de sua pele. E lá pelas tantas veio a belíssima frase: “Ele quer se eleger só porque é negro”.

Os imbecis porto-alegrenses, que têm muito mais trajetória de vida do que eu, parecem não conseguir olhar um centímetro fora do seu ângulo de visão, que abrange apenas vitrines e as seções de auto-ajuda e literatura infanto-juvenil das livrarias.

Mas não é o fato da cor do candidato ser relevante que seja incabível, mas sim que ainda se dê importância à cor de alguém, seja candidato a alguma coisa ou não, para ter o seu valor. E não acredito que eu esteja afirmando algo muito inovador.

Pois bem, imaginem ouvir histórias da sua avô ou de seus pais ou de seus tios que não podiam compartilhar os mesmos ambientes que alguém que possuísse menos melanina que você. Nem os banheiros. Imagine crescer em uma sociedade que ainda mantém guetos, com tudo o que a palavra e a situação implica, para pessoas “de cor” – e a imprensa não se envergonha nem um pouco de utilizar justamente essa terminologia para se expressar a essas áreas. Imagine ter em suas costas o peso de uma tradição e de uma história de exclusão e tortura psicológica baseada em um pigmento celular dérmico.

Fora isso, imagine a mesma história e tradição de exclusão e tortura psicológica pelo fato de seus antepassados prestarem homenagens a Alá, em vez de Javé. E ter em seu documento de identificação um nome partilhado com um dos presos políticos mais importantes que os EUA já mandou à pena capital e também algo que lembre o foragido mais procurado em toda a história norte-americana.

E imagine ser um jovem político, que consegue superar toda essa história e se formar na principal universidade do país, em uma vida percorrida em diversos países, com diferentes culturas, e na vida cosmopolita de St. Louis e Chicago e depois chegar aos mais altos cargos políticos e derrotar, por ampla margem, o seu adversário nas eleições (muito mais “americano”, mais branco, mais soldado, mais herói). Sem contar, aqui sim, um fator histórico localizado: substituir, com toda essa bagagem, dentro de alguns meses, um farm-rancher do interior do Texas, com amplos conhecimentos de caça, machismo e prepotência amparada pela figura do pai.

Agora, se eu fosse negro e norte-americano, estaria extremamente feliz. Pode ser que não mude nada, pode ser que tudo continue na mesma. Mas este momento específico, estes próximos meses, criam uma atmosfera social nunca antes vista naquele país. Seja pelo despertar das consciências, seja pela alta valorização da luta de vida, além da questão racial, e pela esperança por um país mais justo e ético, tanto interna quanto externamente. O simples fato de 1) deslocar completamente o eixo de visão do americano-roots, totalmente individualista e prepotente; e 2) gerar esperança e vida nas milhares de comunidades e organizações alternativas (e aqui, além das raciais, entraram de comboio as religiosas, sexuais, políticas, sociais…) em todo o planeta, realmente marca algo diferente – histórico por obviedade – mas que ainda levará seu tempo para que cada imbecil como os midiáticos porto-alegrenses consigam captar uma pequena parte.

E eu não sou norte-americano e por isso poderia estar me lixando para o que acontece lá. Mas seja pela forçação da mídia sobre o tema, seja pelas implicações políticas reais, seja pelo domínio e imperialismo americanos (mas não somos até mais dominados pelos chineses? Pergunto, apenas…), seja pelo colonialismo local reinante, se até o Lula implica em modificações lá, imaginem o Obama aqui.

Nesse sentido, sim, apenas pelo fato de ele ser negro, já vejo como um avanço gigantesco sócio-político e cultural em um país extremamente vitoriano, para se dizer em poucas e belas palavras.

E todo o resto vem por acréscimo.

Ego, Linguagem, Baixaria, CientificismosNovember 4, 2008 8:31 am

Há algumas semanas, louvei a qualidade da língua italiana por ter, em um de seus ditados populares, a palavra ouriço. Não me lembro exatamente do ditado, mas, entre nós, que temos apenas mosca, pássaro, cusco, um ouriço realmente desperta atenção e admiração.

E até comentei: é assim que se vê o nível cultural de um povo.

Porém, ontem me caíram os butiás do bolso.

Em primeiro lugar, fui ridicularizado em plena aula do supradito idioma. É que os bobalhões seguiam e seguiam e seguiam falando de umas bobagens sobre ninfas e necromancia (aula de italiano de altíssimo nível), porém, o texto que realmente interessava era sobre um parque nacional, que oferecia seus contatos, incluindo e-mails. E então – plim – veio de dentro aquele desejo do conhecimento que apenas Newton e Einstein experimentaram um dia: como diabos se fala arroba em italiano?

Em voz alta e retumbante, fiz a questão.

No entanto, a professoressa, esquecendo-se de toda a tradição milenar do alto nível cultural italiano, preferiu rir e me perguntar de onde surgia essa questão. Após a turma cair na risada, apontando dedos em minha direção, com aquela baba podre que escorria de seus lábios podres entre suas gargalhadas (ok, eu exagero, mas por uma questão estética), senti na pele o desejo de responder que o meu interesse por arrobas era para ter uma unidade de medida mais apropriada para poder calcular a massa adiposa que se aglutinava, irremediavelmente, na bunda, nas coxas, na barriga e nos tríceps dela. Mas preferi calar-me.

E ela, por fim, deu a resposta: chiocciola ou chiocciolina, ou seja, caracol ou caracolzinho.

E mais butiás esvaíram-se das minhas calças. Como assim caracol??? Onde, todo o nível cultural dos ouriços do povo?

Como diria o sábio que gostava de comidas exóticas, mais vale um caracol bem cozido do que dois ouriços crus. E então, vi a Luz.

Ego, Música, GentalhaNovember 2, 2008 7:35 pm

Hoje baixou a pomba-gira das menininhas black-and-pink em mim, e acabo de baixar o CD da Katy Perry.

É bom, assumo. Mas é engraçado ouvir uma guria cantando que beijou outra guria e gostou do gosto (?) do brilho de cereja. É que ela é indecisa: foi tudo tão errado, foi tudo tão certo. Mas é que ela também é ética: espera que seu namorado não se importe.

Já em outra canção, ela pede que o rapaz cale a boca e ponha o dinheiro onde a boca dele está (?), pois, segundo ela, é isso que ele merece por ter acordado em Veigas. Mistério e desolação na cidade da sorte.

Na célebre canção da menina contrariada, ela diz para o rapaz: “Você é tão gay e nem gosta de rapazes”. Boa constatação – e muito importante – para a avaliação de um relacionamento.

Na música mais disco-solta-a-franga, ela diz para o menino que ele muda de idéia tanto quanto as meninas trocam de roupa. Boa música.

No mais, é outra Lily Allen, KT Tunstall e essas raparigas que lançam um CD na vida, mas tão badalado, que podem passar o resto da vida às custas apenas dessa edição. E com o plus da renda proveniente de processos sobre paparazzis e revistas de fofocas.

Ego, Metafísica, Música, CientificismosOctober 26, 2008 8:36 pm

Minhas sobrinhas e algumas amiguinhas estavam aqui em casa hoje. Estas últimas vieram buscar os presentes que minha mãe havia trazido dos meus outros sobrinhos d’além-mar para elas. Um dos presentes era uma espécie de iPod (hi-tech children, baby), que infantilmente tocava apenas rádio (hi-tech children, baby, but with restrictions).

Minha sobrinha mais velha (do Brasil), preocupada com os limites da técnica (cf. Rüdiger), me pergunta:

- Mas, tio, esse iPod vai tocar música gaúcha em inglês?

Música, Arte, Vida lá fora 10:16 am

Depois de 72 horas (ou já são até mais?) banhados pelas finas gotas que caem deste céu do Sul, nada melhor do que desumedecer um pouco a vida com boa música.

Por isso, aumentem o volume, afastem as cadeiras da sala e dêem o play:


E, dentro da mesma temática e umidade, sugiro também “As pererecas sapecas”. Sem duplos sentidos, por favor, porque este aqui é um blog de família.

Ego, Linguagem, Baixaria, PoliticagemOctober 24, 2008 8:35 pm

Aprendam um pouco do supra-sumo da delicadeza profissional. E para não trocar alhos por bugalhos, codifiquei a mensagem com frutas e verduras. Sigilo profissional, entendem?

——- Mensagem original——
De: ABOBRINHA
Para: Mim
Enviadas: Sexta-feira, 24 de Outubro de 2008 18:34:14
Assunto: SALADA DE FRUTAS E VERDURAS

Boa tarde, Sbardelotto. Vai em anexo a BERINJELA, solicitada como urgente, da MELANCIA com o PEPINO sobre o ABACATE. Com votos de um ótimo fim de semana, que espero agora poder desfrutar mais descansadamente, um forte abraço.
Prof. ABOBRINHA

Ego, Jornalismo, Vida lá fora, Gentalha, BaixariaOctober 22, 2008 7:08 pm

Pensate, frate: não é interessante quando um médico precisa ir ao médico? Ou quando uma enfermeira é baixada e precisa da ajuda de outra enfermeira? Ou quando um professor precisa ter aulas de algo que não sabe e tem que prestar atenção a um professor? Ou quando um político é roubado?

Sim, é curioso.

Pois hoje, o feitiço caiu sobre mim. E foi num programa de rádio, sendo entrevistado.

Como tinha que falar sobre algo que ainda está sendo construído (e que se refere ao meu atual trabalho), pedi que não perguntassem nada a respeito das primeiras ações que serão tomadas, porque ainda não foram definidas. “Ok?”. “Ok”.

Depois da primeira pergunta, genérica e incolor, vem a segunda: “Quais serão as primeiras ações que serão tomadas por vocês?”.

Sinapseei, como manda a mais pura biologia, e já ia partir para a primeira reação instintiva, como manda a mais pura biologia. E aí, agradeçamos a Freud que nos presenteou com o Superego, reprimi-me, como manda a mais pura psicologia.

E tentei responder. Ênfase profunda e amarga no “tentei”.

Claro, sempre simpático e gentil, com aquela cara de “who farted?”.

Ego, Vida lá fora, Desportos, CientificismosOctober 21, 2008 7:20 pm

Você sabe que está acumulando um pouco mais de gordura do que deveria (ou ficando flácido, depende) quando, ao sair para correr um pouco e desopilar, tem que retornar apenas uma hora depois, porque não agüenta mais, não por causa do cansaço, mas em razão da ardência das suas coxas repetidamente se roçando uma com a outra.

Ou eu estou ficando torto, ou são minhas células adiposas fraternamente se saudando.

Ego, Metafísica, Vida lá fora, Linguagem, CientificismosOctober 16, 2008 10:36 am

“Mandar tudo às favas” me leva a pensar em uma legítima cena bucólica: uma donzela, vestido curto rodado, azul celeste com fitas brancas, caminhando, saltitante e alegremente, em dia de sol radiante, por um campo repleto de flores amarelas (de uma plantação de favas) que, lá ao longe, unem-se à esverdeante cadeia de montanhas, de onde descem rios de água prateada e reluzente da neve derretida de seus picos. Nas mãos, uma cesta cheia de problemas e complicações e tribulações e estresses e crises e dificuldades e incômodos e transtornos e aflições.

Com seu sorriso ingênuo, ergue as mãos aos céus e, num movimento circularmente perfeito, lança todo o conteúdo de sua cesta, que se esparrama entre a folhagem e os primeiros grãos que serão colhidos em breve.

Pensando bem, não me parece a solução ideal para a minha realidade neste momento.

EgoOctober 2, 2008 4:23 pm

Ninguém me deu os parabéns – e nem eu me lembrei -, mas exatamente ontem este blog completou seu primeiro aninho de vida, e já coiceando a cultura gaúcha.

Coisa linda, não?

Pois é. E exatamente hoje, mas há um ano trás, era isto o que eu apresentava à orbe global.

Tentarei mantê-los em dia com as novidades passadas. Flores e presentes, enviem para o endereço postal.

Metafísica, Arte, Livros 4:09 pm

Nunca tinha lido nada, absolutamente nada de Borges. Só por tabela, em um livro de um de seus pupilos, que o acompanhou quase até a morte, e que escreveu um livro sobre a leitura.

Mas eis que os labirintos da vida me trouxeram dois exemplares da obra dele, diretamente das terras argentinas.

E como o que eu fui, ainda sou e serei, assim como tudo aquilo que o Universo foi é agora em mim, e aquilo que o Universo é e será, também – como Borges escrevia -, me sinto Borges falando sobre si mesmo, em uma conjunção propícia de um espelho e de um livro.

Eis “Ficciones”.

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Ego, Internet, CientificismosOctober 1, 2008 4:46 pm

Onlinemente, para que fique claro. E não apenas eu: muitas outras coisas também.