Para Arthur Schopenhauer, existem 38 estratagemas para comprovar que 2 + 2 são 5. É esse o tema fundamental (não os 2 + 2, mas sim a possibilidade de comprovação de) do livro Como vencer um debate sem precisar ter razão.

O livro todo é permeado por comentários e notas de Olavo de Carvalho*, senhor que, pela iminência de ser entrevistado por um grupo de estudantes (que o diga o Cleber), causou arrepios a um professor fabicano.

Então, juntem Schopenhauer – que não se preocupa em, ao debater, encontrar a verdade, mas sim em vencer o debate – e Olavo de Carvalho – o exterminador da intelligentzia brasileira comunista -, e tá feito o carreto.

Para Schopenhauer, importa vencer o debate. Achar a verdade ou chegar a um termo comum é coisa de maricas e fracotes.

Por isso, algumas dicas estratégicas do autor consistem em provocar a cólera do adversário, “fazendo-lhe algo francamente injusto, vexando-o e, sobretudo, tratando-o com insolência”. Qualquer semelhança com o debate público nacional é mera coincidência.

Ou, então, utilizar a palavra certa no momento certo ou dar uma eufemizadinha básica:

Fervor religioso / fanatismo; passo em falo ou caso amoroso / adultério; equívoco / obscenidade; deseqeuilíbrio econômico / bancarrota; “mediante influência e ligações” / “mediante suborno e nepotismo”; “reconhecimento sincero” / “uma boa remuneração”.

Ou também pode-se recorrer à saída clássica:

Um golpe descarado é quando, depois de o adversário responder a muitas perguntas sem que as respostas fossem adequadas à conclusão que tínhamos em mente, declaramos e proclamamos triunfalmente demonstrada a conclusão que pretendíamos, ainda que de fato não se siga de suas respostas. Se o adversário for tímido ou tolo, e se tivermos boa dose de descaramento e uma bela voz, este golpe poderá funcionar.

Hoje, ainda podemos acrescentar a esta última sentença o fato de possuírmos uma mulher gostosa e que é capa da principal revista masculina nacional, ou a posse de nosso extrato bancário, ou ainda a comprovação da qualidade profissional de nosso papai – situação esta muito empregada por filhos de promotores e juízes, quando em situações de risco prisional.

O livro, em suma, é um manual de maquiavelismo psicológico do discurso. Ou seja, dicas e sugestões para uma prática da Lei do Talião por Antecipação:

Se existisse lealdade e boa fé, as coisas seriam distintas. Mas, como não se pode esperar isto dos demais, ninguém deve praticá-las, pois não teria retribuição. O mesmo acontece nas controvérsias. Se dou razão ao adversário nos momentos em que este parece tê-la, não é provável que ele faça o mesmo no caso contrário. Antes, recorrerá a meios ilícitos. Portanto, devo fazê-lo também.

Lindo, não?

Mas uma coisa que incomoda é a chatice do Olavo de Carvalho. Dá no mesmo ler Emir Sader e ele. É só trocar “esquerda” por “direita”, e “império” por “comunismo”, e estamos entendidos. Quase como o grande representante gaúcho, na pessoa de Percival Puggina.

No fim das contas, sobra até para o pobre Wittgenstein, que

[…] passou o resto da vida a analisar expressões de linguagem comum, com resultados de requintada banalidade, que não vão além de um pragmatismo mais complicado.

E Bertrand Russell recebe também uma bela homenagem póstuma:

Assim termina sua busca da coerência lógica absoluta: como uma ilustração pitoresca das Leis de Murphy.

Engraçadinho o Carvalho, não?

Pois bem, no demais, é um livro cheio de erros de revisão e edição, com inúmeras palavras repetidas, comentários e citações em falta e erros de digitação amadores.

Além disso, a escolha do papel da capa do livro foi feita por uma criança da 4ª série – suposição que eu faço em razão da semelhança com os meus Creative Papers das aulas de Educação Artística.

Com a segunda manipulação, o amarelo da folha transforma-se em um marrom suor-e-pele-morta.

* * * * *

*Encarnando a bizarrice bizantina em pessoa, Olavo de Carvalho pede ajuda financeira a seus leitores no seu site. Tudo por causa de um “lobby esquerdista internacional” (?). Ao oferecer à sua família “uma vida modestamente confortável no interior da Virgínia”, nos Estados Unidos, e a si mesmo um “curso abreviado de política americana” e um programa de viagens a Washington “para contatos pessoais e conferências”, tudo isso lhe exigiu investimentos financeiros pesados em “centenas de livros, dezenas de assinaturas de revistas e subcrições em think tanks, não sei quantas diárias de hotel e alguns milhares de galões de gasolina”.

Por isso, é doando que se recebe. Se recebe o quê? “A minha gratidão e talvez à gratidão da pátria, se esta ainda existir no futuro”. Viva o Brazil-zil-zil!

E ele avisa: “O dinheiro jamais é neutro – se não serve ao bem, serve ao mal”. Compreenderam bem, não?