“As aventuras de Tom Sawyer”, de Mark Twain
Nunca antes na história da minha vida havia considerado que uma infância bem vivida no século retrasado possa ser comparada a uma infância bem vivida um século depois.
Foi essa a sensação que o tocante (seria essa a melhor definição?) livro de Mark Twain, As aventuras de Tom Sawyer deixou gravado em mim.
Apesar de não ser a melhor obra de Mark Twain (segundo afirmação do próprio autor encontrada em uma leitura minha de quase um ano atrás), “As aventuras…” é com certeza uma das representações mais sinceras de uma infância infantil: saber-se criança e ter a certeza de que essa é a melhor fase das nossas vidas – e desafiar os adultos, que são chatos e bobos, a encarar essa certeza como uma verdade.
O livro conta a história de Tom Sawyer, um menino pobre do interior dos Estados Unidos, que vive com a sua tia Polly, seu irmão e sua prima. Ele tem dois grandes amigos, Jow Harper e Huckleberry Finn, com os quais se envolve em zilhões de travessuras, até o dia em que presenciam um assassinato – e correm o risco de serem perseguidos pelo assassino e seu comparsa.
Mas o livro é uma compilação de brincadeiras de criança (“como é bom!”) e toda a preparação ao mundo adulto que essas brincadeiras podem ser.
E também a revelação de quanto a morte é a oportunidade propícia para que as coisas que realmente importam nessa vida se revelem com toda a sua imponência. Para alguns, pode ser uma revelação tardia e inútil. No caso de Tom, foi uma alavanca para o seu próprio auto-conhecimento.
E também a revelação do grande primeiro amor, com direito à mais antiga imagem da perda de sentido por uma ilusão: perder-se em uma caverna. E lá estavam Tom e sua feliz (e completamente apavorada) amada.
Ser criança é ser criança, caracóis!
Não vou ficar aqui fazendo uma análise da minha infância, mas acredito que muito do que Tom Sawyer viveu foi também vivido por mim, décadas depois, numa cultura completamente diferente, num país idem. Mas a vontade de ter sido amigo de Sawyer e brincar com ele foi algo que falou mais forte do que a vergonha (sintoma adulto?) de assumir isso.
Como ele, já fui pirata, já roubei coisas por puro divertimento (e para completar a minha coleção de figurinhas que vinham com os chocolates Surpresa) (chocolates, tchê… Não sejam tão moralistas comigo!), já sumi de casa, já fumei escondido para ver como era (graças a Deus não gostei), já me enamorei de meninas em quem nunca cheguei a encostar um dedo, já tive meu “bando” que desafiava os outros bandos do bairro, já fui à igreja e fiquei fazendo quaisquer outras coisas mais interessantes que prestar atenção ao padre (ele falava em outra língua, coisa de adulto).
E tudo isso também o fez o nosso estimado Thomas.
Mas o melhor fica por conta de Twain, que consegue revelar essa infantilidade de Sawyer com as características de qualquer menino-homem: brincar ao ponto de superar-se e superar os demais. Brincar como uma condição biológica: ou eu brinco pra valer, ou eles escolhem um amigo mais divertido.
E faz isso sabendo que grande parte de seus leitores já foram crianças, mas agora o lêem desde outra perspectiva:
- Me diga uma coisa Becky, você já foi noiva? [disse Tom Sawyer] – Mas o que é isso? – Ué, noivar para se casar!;;; – Não. – E você gostaria? – Acho que sim. Eu não sei. De que jeito é? – De que jeito? Ora, não é de jeito nenhum. Você simplesmente diz para um menino que nunca, nunca, nunca mais vai querer saber de outro além dele e então vocês se beijam e está pronto. Qualquer pessoa pode fazer isso. – Beijar? E para que a gente beija? – Ué, bem, ora… Você sabe, é para… bem, todo mundo faz isso.
- Cansei de nadar [disse Joe Harper, amigo de Tom Sawyer], acho que nem gosto mais. O bom de ir para o fundo é quando tem alguma pessoa que fica dizendo para a gente não ir.
[Tom Sawyer] Prometeu abster-se de fumar, mascar fumo, tomar bebidas alcoólicas e dizer palavras obscenas ou ofensivas, enquanto durasse sua participação como membro da Ordem. E agora fez uma nova descoberta sobre a natureza humana, a saber, que a promessa de não fazer determinada coisa é a maneira mais garantida que existe neste mundo de querer fazer justamente aquilo.
- Vamos reunir os meninos e fazer a iniciação esta noite, quem sabe? [perguntou Tom] – Fazer o quê? [replicou o amigo Huckleberry Finn] – Fazer a iniciação. – Mas o que é isso? – É jurar que nós vamos ficar sempre do lado uns dos outros e nunca contar os segredos do bando, mesmo se alguém nos cortar em pedacinhos; também vamos jurar que a gente mata qualquer pessoa que machucar alguém do bando e mais toda a família dela. – Mas isso é lindo. É muito lindo mesmo, tom, vou te contar!
Ser criança é desafiar adultos, ora essa!
Uma das coisas que Mark Twain faz com primor é escrever com uma ironia finíssima que em muito me agrada. E disso não há muito o que falar. É só ler e se deliciar:
Se [Tom Sawyer] tivesse sido um grande e sábio filósofo, como o autor deste livro, teria agora compreendido que o trabalho é tudo aquilo que a pessoa é obrigada a fazer, e que a diversão é tudo aquilo que a pessoa não é obrigada a fazer.
Tom levou mais bofetadas e beijos nesse dia – de acordo com as variações de humor de tia Polly – do que tinha recebido durante um ano qualquer antes. Ele não sabia mais se eram as bofetadas ou os beijos que expressavam maior gratidão a Deus e mais afeição por ele próprio.
Ser criança é não entender lhufas, pombas!
O livro também me deixou entretido com os meus botões depois de duas coisas que o autor e o tradutor colocam no livro.
Uma delas é a veracidade da História (com H) que nos foi contada por aquela professora da 5ª série. Dúvida que saltita a partir do trecho que segue:
Tom Sawyer avançou, cheio de confiança e vaidade, e lançou-se no discurso memorável e indestrutível que começa por “Concedam-me a Liberdade ou entâo me dêem a Morte*”.
Na nota de rodapé, a explicação do *:
Peça de oratória atribuída a Nathan Hale (1755-1776), herói da Guerra da Independência dos Estados Unidos, que teria sido proferida pelo patriota antes de ser enforcado como rebelde pelos ingleses.
Ou seja, aquela palhaçada de Dom Pedro I gritando às margens do Ipiranga “Independência ou Morte” é apenas uma collage mal-feita da história americana nas terras tupiniquins? Ou, pior: seria essa uma frase dita por Adão ao Deus Criador, ao ser expulso do Éden, e que depois virou copyleft pelos séculos dos séculos?
Passemos agora às finanças americanas do século retrasado:
Cada um dos rapazes tinha agora uma renda simplesmente prodigiosa – um dólar para cada dia da semana durante o ano todo e cinqüenta centavos aos domingos. […] Naqueles dias antigos e menos complicados do que agora, um dólar e vinte e cinco centavos por semana bastavam para pagar o alojamento, alimentação e taxas escolares de qualquer menino – e ainda sobrava o suficiente para comprar roupas e artigos de higiene.
Tudo isso com UM DÓLAR E VINTE E CINCO CENTAVOS? Exigirei explicações detalhadas ao Bird e ao FMI dessa palhaçada toda de recessão americana que vem enchendo o saco ultimamente.
Ser criança é ler traduções e ter o direito de não gostar, ora bolas!
Muito bobo, feio e cara-de-chulé esse seu William Lagos, tradutor de “As aventuras…”, na sua edição pela L&PM Pocket.
Em primeiríssimo lugar, quase largo o livro e incinero-o na churrasqueira aqui de casa quando me dou por conta que um dos personagens (coitado!) fica marcado durante toda a narrativa por um sotaque caipira abrasileirado, que me lembrou tristemente as dublagens da Família Buscapé e coisas que o valha.
Quem é o legítimo caipira/interiorano/colono brasileiro? Quem é de Sorocaba? Quem é de Boa Vista do Incra? Quem é de Atalaia do Norte?
É por isso que fui tomado por desgosto quando o tradutor teve a petulância de me escrever algo como:
- Bem, desse jeito inté parece que tá certo, mas não foi ansim que o Bob Tanner fez.
E essa é apenas uma frase. Tem coisa muito pior – e mais comprida – no resto do livro.
Outro ponto: de um tradutor, espera-se que ele consiga captar o sentido das palavras utilizadas no original pelo autor, certo?
Para William Lagos, errado.
Ele traduz ipsi literis, não importa o contexto. Se o autor escreve “orgias” no inglês, ele traduz por “orgias”. Mas utiliza, sabiamente, uma nota de rodapé para dizer o seguinte:
O termo é usado por Twain no sentido de “grandes bebedeiras”.
Custava então traduzir a *&#@$#@$# das “orgias” por “grandes bebedeiras” ou algum sinônimo?
Ser criança é chegar no clímax dos píncaros da glória, tá bom!
Passando da doçura de um gesto de uma criança (ai, que coisa mais piegas…) até as peraltices inerentes a todo o ser infanto-juvenil, Tom Sawyer é como qualquer um de nós.
Mas ele tem o seu momento de glória, que me fez parar e dar-me conta que a emoção que eu senti na pele por algo que o personagem viveu era real e verdadeiramente estava causando uma produção maior que o esperado de secreção fluida pelas minhas glândulas lacrimais.
E foi por meio de um simples trecho como este:
[O advogado] Suspendeu sua defesa com uma pausa dramática e dirigiu-se ao meirinho: – Chame Thomas Sawyer, por favor.
Um nome, uma sentença.
Esse é Tom Sawyer, o menino que nem pensava se queria crescer. Porque aproveitava a infância brincando.
Moisés Sbardelotto - 









