Entre umas leituras e outras, aproveitei para ler alguns textos curtos de Kafka. O primeiro deles, que é extremamente autobiográfico e pessoal, é Carta ao meu pai.

Escrito justamente em formato de carta – mas que nunca chegou a ser entregue ao pai, já que o autor, com o passar dos anos, reviu o valor estético e literário da coisa -, a obra é o esparramar-se do coração destruído do filho Kafka.

No fundo, no fundo, além de pena, dá uma certa raiva da imobilidade, do marasmo e da resignação psicológica – quase inumana – de Gregor Samsa, digo, Franz Kafka.

Dois sentimentos básicos apresentados por Kafka são medo e culpa. Medo do pai, da sua persona, da sua presença, da sua figura, dele como um todo. Culpa por não responder às expectativas do pai e por não fazer nada para mudar isso, por se sentir rejeitado e não saber como vencer essa rejeição e, mais ainda, não sentir a menor vontade em fazê-lo.

Tratavam-se por inimigos.

Querido pai: perguntaste-me certa vez por que motivo eu afirmava que te temia. Como de hábito, não soube a que te responder, em parte exatamente pelo temor que me infundes […]. E mesmo esta tentativa de responder-te por escrito ficará inconclusa, porque, também ao escrever, o temor e os seus efeitos inibem-me diante de ti.

Em toda a obra é impressionante a baixíssima auto-estima de Kafka diante do pai.

Éramos tão diferentes, e nesta diferença tão perigosos reciprocamente, que, se se tivesse calculado de antemão a relação que surgiria entre mim, o menino que se desenvolve pouco a pouco, e tu, o homem feito, fora possível admitir que praticamente me destruirias pisoteando-me, que nada restaria de mim. Isto não aconteceu, o que vive não pode ajuizar de si, mas talvez sobreveio algo pior ainda.

Eu dividia o mundo em três partes: uma, onde eu vivia, o escravo, regido por leis inventadas exclusivamente para mim, às quais, além do mais, e não sei porque não podia adaptar-me completamente; depois, um segundo mundo, infinitamente afastado do meu, no qual vivias tu, ocupado em governar, distribuir ordens e aborrecer-se porque não eram cumpridas; e, por fim, um terceiro mundo, onde vivia o povo livre e alegremente, sem ordens nem obediência.

Não é normal que um filho sinta seu pai como um monstro que poderia pisotear e não deixar restar nada do próprio filho. Não é normal um filho pensar que seu pai é um governante feroz e maldoso, que manda e desmanda em seu filho-escravo.

Essa sensação de baixeza diante do pai, de inalcançável amor paterno, pode ter algumas razões.

Exatamente como pai era muito forte para mim, sobretudo porque meus irmãos morreram ainda na infância, as irmãs vieram somente muito depois, pelo que eu tive que resistir completamente só o primeiro choque; para isso eu era extremamente fraco.

Psicologicamente falando, não deve ser fácil ser o único sobrevivente entre irmãos falecidos ainda na infância. E muito menos ser o único sobrevivente durante anos, até que novas irmãs nasçam e causem uma revolução estrutural na família.

Para o leitor, no entanto, é terrivelmente profundo acompanhar a confissão de Kafka. Como uma navalha que vai cortando aos poucos toda a pele do corpo, cada frase do autor é uma manifestação da gravidade que as relações familiares podem alcançar.

Compreendo tudo isso, mas não me parece também normal que Kafka simplesmente assuma toda essa realidade com tal conformidade, como se não houvesse a mínima chance de escapar, como o inseto em que Gregor Samsa se transforma, como o processo do qual K. não consegue encontrar escapatória.

Meus escritos tratavam de ti; neles, lamentava o que não podia lamentar sobre o teu peito. Era uma despedida de ti, voluntariamente dilatada que, embora tu forçasses, ia pelo rumo que eu lhe determinara.

E Kafka assume sua passividade:

Tal como sou, represento (excluindo naturalmente os fundamentos e a influência da vida) a conseqüência da tua educação e da minha obediência.

Justamente é nessa relação entre a educação paterna e a obediência kafkiana que alguma coisa falha. E falha de ambos os lados, mas especialmente na obediência kafkiana.

Forças negativas, que descrevi como parte da tua educação, quer dizer, debilidade, falta de confiança em mim mesmo, sentimento de culpabilidade.

Sua obediência cega, seu sentimento de culpabilidade, tudo isso pode ser resquício de uma educação feroz e insensível. Onde se encontra, no entanto, a resposta de Kafka a tudo isso? Num simples aceitar passivamente a situação e lamentar-se por não ter vontade de reconquistar a sua dignidade diante do pai? Nem mesmo depois de adulto? Ele mesmo reconhece que suas irmãs, mesmo que pelo casamento, conseguiram sua independência.

Para ele, a saída estava no ato de escrever:

Meus escritos tratavam de ti; neles, lamentava o que não podia lamentar sobre o teu peito. Era uma despedida de ti, voluntariamente dilatada que, embora tu forçasses, ia pelo rumo que eu lhe determinara. […] Contudo devo reconhecer que um filho tão taciturno, insensível, seco e abandonado me seria intolerável; se não tivesse outra alternativa, fugiria dele, emigraria, como tu queria fazer.

Emigrar e fugir pelo ato de escrever. Foi essa a atitude – nada corajosa – de Kafka.

Mas não me venham com besteiras: com isso não quero fazer um juízo de valor da obra literária de Kafka, até porque são absurdamente magníficas. Atitudes nada corajosas, porém imensamente valiosas para a literatura mundial.

Mas, psicologicamente falando, Kafka foi um parasita, um parasita sofredor, assim como o inseto Gregor Samsa passou a ser de sua família, assim como K. foi de seu advogado e da Justiça que o processava sem persegui-lo. Nenhuma atitude pró-ativa (ah, os admnistradores modernos…) da parte de Kafka; apenas passividade e conformidade.

O próprio Kafka assume isso ao colocar na boca do pai as seguintes palavras:

Puseste na cabeça a intenção de viver totalmente em minhas costas. Reconheço que lutamos um contra o outro, mas existem duas espécies de combates. O combate cavalheiresco, em que se medem as forças de adversários independentes; cada qual está sozinho, perde só, vence só. E a luta do parasita, que não somente fere, mas que ainda absorve o sangue daquele que o mantém. […] Se não estou muito equivocado, também com tua carta ages como um parasita sobre mim.

E como defesa e tréplica, Kafka não consegue fugir do labirinto culposo criado por ele mesmo sob a figura do pai:

Todas a objeções que fazes podem também voltar-se contra ti, em sua maioria, e […] não se originam em ti, mas em mim. Nem mesmo tua desconfiança dos demais é tão grande como a minha desconfiança de mim mesmo, na qual me educaste.

Mas quem sou eu para analisar Kafka, não? Mesmo assim, acabei fazendo-o.

No fim das contas, é um texto magnífico, de uma profundidade e uma sinceridade que embasbacam. E também de um amor – não existe outra explicação – que inveja. Mas fica aquele sentimento: por que foi tão difícil concretizar esse amor num abraço terno no peito do pai?

Era o que Kafka, sem dúvida, mais queria. Com a “Carta…”, esperava algo parecido:

Tranqüilizar-nos um pouco a ambos e fazer-nos mais fáceis o viver e o morrer.

Não chegou a ser um abraço sincero entre pai e filho, mas foi uma libertação catártico-literária do coração kafkiano e uma fresta na represa de sentimentos contidos nas vidas de toda uma legião de leitores que Kafka ajudou a confrontar-se com o seu próprio absurdo humano, familiar e social.

Detalhe editorial

Com relação a essa edição da Martin Claret, novamente a tristeza por encontrar uma tradução pobre, sem nenhum nota de rodapé para situar o leitor nos meandros e detalhes familiares e práticos da vida da família Kafka.

E o pior: novamente uma tradução com trechos simplesmente plagiados e copiados de outras traduções.

Uma pena.